Apresentação

O Projeto ABEPSS Itinerante é uma das estratégias pedagógicas e políticas desenvolvidas pela entidade desde o ano de 2011 com o objetivo de fortalecer a formação em Serviço Social em uma perspectiva crítica e contribuir para a consolidação das Diretrizes Curriculares da ABEPSS.

Em sua 8ª Edição, a gestão da ABEPSS (2025-2026), “A Certeza na Frente, a História na Mão: Serviço Social e Luta Coletiva, ao considerar sua temática central “Formação em Serviço Social na Perspectiva de Totalidade em defesa da unidade das lutas sociais emancipatórias”, elegeu como tema do Projeto ABEPSS Itinerante, “Projeto Ético-Político do Serviço Social: método do materialismo histórico-dialético e unidade de lutas sociais emancipatórias”.

O Serviço Social, como profissão e área de conhecimento (Mota, 2016), em seu percurso histórico movimentou-se (e movimenta-se) em constante busca de ruptura com o conservadorismo na profissão, construindo um projeto profissional, denominado projeto ético-político que, orientado hegemonicamente pela tradição marxista, é articulado a um projeto societário em direção à emancipação humana, somente possível em uma sociedade que supere o atual modo de produção.

Considera-se que a aproximação à teoria marxiana é uma determinação central para que o Serviço Social mantenha sua disposição em defender os princípios do Projeto Ético-Político, incorporando as lutas sociais de trabalhadores(as), estudantes, mulheres, negros(as), indígenas(as), pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência, migrantes, refugiados, dentre outros.

Além disso, o Serviço Social incorporou, na sua agenda de pesquisa, a questão dos fundamentos do trabalho profissional, da ética profissional, das questões agrária, urbana, ambiental, do financiamento público, além de variados estudos referentes à política social, que têm em comum a apreensão (e a denúncia) da vida de sujeitos que sofrem inúmeras carências, violências, violações de direitos agravados pela crise do capital e pela estrutura da sociedade racializada e patriarcal.

Por outro lado, embora o Serviço Social brasileiro tenha construído um projeto profissional que busque articular, de forma indissociável, as dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa, percebe-se uma considerável dicotomia na relação entre profissão e área de conhecimento; formação e exercício profissional; graduação e pós-graduação; teoria e prática; ensino e pesquisa; pesquisa e extensão; produção de conhecimento da área e formação profissional; profissão e lutas emancipatórias.

Dicotomias que fragilizam a concepção e objetivação do projeto profissional em uma perspectiva de totalidade e seu posicionamento por lutas emancipatórias.

Ademais, o Serviço Social, como as demais profissões e áreas de conhecimento, está imerso na avassaladora crise do capital e todo o processo destrutivo da humanidade, de outras formas de vida e da natureza; o fortalecimento do neoliberalismo e da extrema direita; o avanço da lógica individualizada e individualizante, marca da sociabilidade burguesa, que enfraquece as lutas coletivas; o desemprego estrutural, o desestímulo de discentes de graduação com o processo formativo e da falta de condições para permanência na educação superior; as condições salariais e as precárias condições éticas e técnicas dos(as) Assistentes Sociais; a mercantilização do ensino superior (principalmente no formato de Educação à Distância); o avanço do pensamento conservador (irracionalismo pós-moderno e seu substrato reformista-conservador e o racionalismo formal-abstrato) e suas constantes desqualificações à tradição marxista; a formação sócio-histórica brasileira e sua estrutura classista, racista, sexista, patriarcal, colonial, moralizadora, religiosa; o desprezo à ciência; a dificuldade de absorção, pela categoria profissional, da teoria e método dialético marxiano, dentre outros.

O tempo presente é de defesa dos avanços conquistados pelo Serviço Social, no Brasil, desde o final da década de 1970, levando ao amadurecimento do seu processo de renovação teórico-cultural e à consolidação do Projeto Ético-Político em sua direção social estratégica.

A pesquisa e a produção de conhecimentos afirmam-se como uma das linhas de força que orientam a constituição de uma nova cultura profissional que defende um projeto de profissão coletivo, que objetiva direcionar ética e politicamente a intervenção socioprofissional e balizar os compromissos profissionais dos(as) Assistentes Sociais.

Essa inflexão resultou dos movimentos profissionais e da ação de um conjunto de forças que optou por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero (Código de Ética Profissional - Princípios), impondo o redimensionamento da agenda socioprofissional numa perspectiva crítica e de ruptura com o conservadorismo e seus aportes culturais.

Não se trata de uma homogeneidade no perfil da categoria, mas de um processo histórico revelador de heterogeneidades complexas e intrínsecas relações de classes que atravessaram e atravessam a profissão.

O projeto profissional do Serviço Social, ancorado na teoria marxiana, comporta, dialeticamente, a luta contra o conservadorismo na profissão e contra todas as formas de conservadorismo na sociedade, sendo, portanto, um projeto dentro e fora de seus muros, havendo a necessidade de um esforço na apreensão do método dialético, pela categoria profissional, visto que “No método do abstrato ao concreto está contida a concepção marxiana de teoria e de prática” (Santos, 2010, p. 27).

Assim, lutar contra o conservadorismo na profissão é lutar, ao mesmo tempo, contra a conservação do capitalismo, do racismo, do patriarcado, da heteronormatividade, do capacitismo.

O tempo presente nos exige considerar a impossibilidade de hierarquizar as lutas, pois é urgente uma articulação em defesa da vida humana, das outras formas de vida e da natureza, em uma perspectiva de totalidade, com a necessária unidade da luta contra o capitalismo (e a urgente posição de luta pela gravidade da questão ambiental e defesa dos territórios de povos e comunidades tradicionais), o racismo e o patriarcado.

No ano de 2026, o Serviço Social comemora os 90 anos do surgimento do primeiro curso de Serviço Social no Brasil, na hoje Pontifícia Católica de São Paulo (PUC-SP); 101 anos do Serviço Social na América Latina; 80 anos da ABEPSS; 30 anos das Diretrizes Curriculares da ABEPSS; seis décadas do Movimento de Reconceituação do Serviço Social latino-americano; 16 anos da criação dos Grupos Temáticos de Pesquisa (GTPs da ABEPSS), o que justifica a proposta do Projeto ABEPSS Itinerante em evidenciar, o Projeto Ético-Político em Serviço Social, a perspectiva dialética e a unidade das lutas emancipatórias.

Dessa forma, com a realização da 8ª edição do Projeto ABEPSS Itinerante, pretende-se evidenciar a direção social estratégica do Projeto Ético-Político, como a síntese do modo de ser do Serviço Social brasileiro, destacando no interior da construção deste projeto profissional, a racionalidade do método dialético como central para a interpretação do Serviço Social em uma perspectiva de totalidade, reafirmando a construção coletiva da categoria por uma formação crítica e em defesa da unidade das lutas sociais emancipatórias em vista da emancipação humana, com a necessária superação do capitalismo, do racismo do patriarcado.


Referências:

MOTA, A. E. Serviço Social brasileiro; insurgência intelectual e legado político. In: OLIVEIRA E SILVA M. L. Serviço Social no Brasil: história de resistência e ruptura com o conservadorismo. São Paulo: Cortez, 2016. p. 165-182.

SANTOS, C. M. Na prática a teoria é outra? Mitos e dilemas na relação entre teoria, prática, instrumentos e técnicas no Serviço Social. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.